OSMAR
OSMAR
Hoje seria um daqueles dias
aleatórios em que o que eu pensava era o segundo turno das nossas eleições. Mal
levantei da cama e percebi que o assunto mais badalado da manhã era política,
exceto pelo programa da Ana Maria Braga que sempre tenta descontrair em tempos
difíceis. Cheguei na consulta atrasada mas tive sorte porque ao que tudo
indica, a médica estava mais atrasada que eu. Sai da consulta com um peso e uma
desesperança prévia de tudo aquilo que eu achava que poderia acontecer. Peguei
um brt e quando cheguei no metrô me perguntava se todas aquelas pessoas tinham
votado com consciência. Lembro de ceder o lugar a uma senhora que parecia ter
problemas nas pernas e quando me dei conta estava do lado de Osmar. Não sei ao certo se foi somente por pura
educação ou mera simpatia, mas ele me deu um sorriso e fez a seguinte pergunta:
“votou bem?
”
A partir dali
a conversa fluiu e percebi que estava falando da tamanha aflição com relação ao
futuro e Osmar disse: “somos resistência, não acha? Não se engane menina, o black power que você carrega tem
poder, história e resistência”. Negro, de óculos escuros, cavanhaque branco,
terno preto e careca Osmar foi capaz de arrancar sorrisos que pareciam
distantes em plena segunda-feira. Do jardim Oceânico a São Conrado descobri que
dos seus dois filhos um deles é mulher e feminista arretada, e o mais novo é um
menino de 17 anos jogador de basquete que acabou de assinar com o time do
fluminense. Aos 63 anos Osmar é artista plástico e coordenador do flamengo
casado com uma professora.
“Eu guardo um
segredo, assim como você a minha resistência está no meu cavanhaque, nele
guardo todas as minha vivências e escolhas, sabia? ” A essa altura eu estava
completamente à vontade e queria que aquela conversa não acabasse. Ao chegar na
antero de quental Osmar perguntou o meu nome, colocou um dos seus pés para fora
do vagão, olhou na minha direção e quase como um favor me falou: “Não desiste
Bianca”. Seria inútil da minha parte reafirmar que tudo tem um motivo já que é
evidente que sim. Termino esse texto com um sorriso no rosto e com a memória
fresca de uma das respostas mais fáceis que já dei na vida:
Poder deixar
Osmar.
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